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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Colonos Judeus Para Angola - As Tentativas Que Fracassaram




Uma página esquecida da História de Portugal

[sobre este assunto podem ler também aqui]

Uma pequena advertência que naturalmente se impõe.


Embora os casos das diversas diligências frustradas da imigração ou tentativa de colonização do planalto de Benguela, no então território português de Angola (iniciativas essas cujos começos antecederam a própria Declaração Balfour), pela parte dos Judeus, possam parecer algo deslocadas do tema central deste livro, o autor não quis deixar de abordar neste trabalho essas situações que já fazem parte integrante da história política e diplomática – de Portugal e do povo judeu – mas que a maioria dos portugueses lamentavelmente ignora que existiram. Focamos este assunto impelidos pelo óbvio interesse histórico que ele, realmente, merece.

A maioria dos portugueses ignora, de facto, que Angola no seu passado, e quando ainda era uma terra portuguesa, esteve na calha para receber largos contingentes de colonos judeus. Toda esta história tem o seu começo durante a Primeira República Portuguesa, no ano de 1912, dois anos após a implementação da dita em 5 de Outubro de 1910, e prosseguirá durante os anos 30 e 40, ou seja, antes e durante o trágico decorrer da Segunda Guerra Mundial de 1939-1945.


A primeira diligência nesse sentido foi levada a cabo por W. Terlo, um enólogo judeu, cujas averiguações no sentido de virem a ser alojados no território de Angola imigrantes judeus, levaram a que no dia 15 de Junho de 1912 (note-se que a famosa Declaração Balfour só será feita em 2 de Novembro de 1917), no Parlamento português, por unanimidade, fosse aprovado um projecto-lei ao qual foi dado o nome de Projecto Bravo. Nome do deputado Manuel Bravo.

Tal projecto contemplava a colonização, pela parte dos Judeus, de uma determinada parcela no planalto de Benguela, em Angola, cujo tamanho seria cerca de 45.000 quilómetros quadrados. Depois dessa aprovação, o citado decreto tinha apenas que ser incorporado na Constituição. Todavia, a Jewish Territorial Organisation (Organização Territorialista Judaica), um organismo judaico criado para a pesquisa de um refúgio para o povo judeu, não esteve de acordo com o Projecto Bravo, que lhe foi apresentado na cidade de Viena, na Áustria, entre os dias 27 e 30 de Junho de 1912.

As razões apresentadas pela citada Jewish Territorial Organisation foram que as concessões dadas por Portugal eram, no seu entender, diminutas. Fizeram igualmente reparos negativos às condições económicas que reduziam as doações de terrenos somente para colonos judeus individuais, o que não permitia fortes investimentos colectivos, ou empresariais pela parte das
grandes sociedades financeiras judaicas. Mas, sobretudo, a Jewish Territorial Organisation, queria que Portugal lhes concedesse o direito de lá constituir uma área para a construção de «uma mova pátria judaica» o que, obviamente o governo português sempre rejeitou, até porque o primeiro artigo do referido projecto, que um pouco mais tarde viria a ter a designação de 200 B, estipulava desde logo que os colonos judeus se deviam tornar portugueses para assim poderem usufruir da posse dos terrenos.


Está bom de ver que o interesse das organizações judaicas em Angola residia no facto de um eventual assentamento de uma colónia judaica nesse território da África ocidental portuguesa ser passível de uma concessão do governo de Lisboa que lhes permitisse lá a instalação de uma zona com autonomia política, económica e administrativa própria, coisa que, evidentemente, era absolutamente incompatível com a soberania portuguesa. Além disso o mesmo documento parlamentar reafirmava o princípio inalienável do português como língua oficial das escolas e de todos os documentos oficiais e públicos que viessem a ser usados pelos judeus ali instalados. Isto para evitar aquilo que já em 1910, o então presidente da Câmara (Kaymakam) de Nazaré, durante a dominação do Império Turco Otomano, escreveu:


...Os judeus não convivem absolutamente nada com os otomanos; não lhes compram nada. Possuem um banco especial... Em cada aldeia e em cada colónia fundaram uma comissão central e uma escola... Os judeus possuem também uma bandeira azul com a Estrela de David no meio... Hasteiam essa bandeira em lugar da bandeira otomana... Quando os Judeus se dirigem às autoridades administrativas declaram que se encontram inscritos nos registos otomanos (isto é: que são súbditos otomanos), mas trata-se de uma mentira e de um embuste... (1)
Também reforçando o que acima é descrito, podemo-nos valer do que escreveu Maxime Rodinson, e que pode ser aqui apontado como um certo exemplo de «autonomia» judaica que existia no tempo do mandato britânico sobre a Palestina, como após esta, isto é:
...os judeus encontram-se também unidos por redes quase autónomas no domínio económico; cooperativas, organização central de distribuição, sindicatos agrupados no poderoso Histradut, que funcionava como empresário capitalista, banqueiro, segurador, proprietário predial e fazia
ainda funcionar uma espécie de seguro social... (2)
Apesar de tudo, a Jewish Territorial Organisation, organizou uma espécie de expedição a Angola sob a superior assessoria de um cientista inglês de nome J. W. Gregory. Pesquisaram cerca de 3.000 quilómetros quadrados, mas chegaram à conclusão final que a colonização não era exequível.
O tempo passou, e em 20 de Janeiro de 1934 houve outra tentativa para levar colonos judeus para Angola. Faz-se aqui notar que os nacional-socialistas já tinham chegado ao poder na Alemanha um ano antes. Foi mais ou menos na data acima referida que o embaixador de Portugal na cidade de Londres, Ruy Ennes Ulrich, informou o governo português de que tinha sido contactado por duas importantes personalidades judaicas de origem alemã, o dr. Fritz Seidler, que tinha sido secretário do ex-presidente alemão, Streseman, e pelo dr. Ernst Meyer, que era membro da Federação Internacional dos Jornalistas, que o informaram que andavam em demanda de um território para colocarem judeus alemães instruídos. Fizeram questão mesmo de sublinhar este importante pormenor. Na sua opinião Angola era uma extraordinária
alternativa à Palestina, dado nessa altura estarem em curso rigorosas restrições (impostas pelas autoridades britânicas) à imigração judaica para essa região do Médio Oriente. (3)
Porém, no dia 24 de Fevereiro de 1934, o referido embaixador português na Grã-Bretanha, numa nota enviada ao Palácio das Necessidades, em Lisboa, recomendou um parecer negativo à instalação de judeus alemães em Angola. Nesse entretanto, e através de uma carta, o dr. Fritz Seidler, comunicou que uma Sociedade de Refugiados, com sede na cidade francesa de Paris, estava na inteira disposição de conceber um banco capaz de financiar essa colonização em Angola.

Todas estas movimentações acabaram por chegar a um jornal inglês, o Daily Herald, que publicou em 30 de Abril de 1934 um artigo intitulado:


Nova casa para 5.000.000 de judeus. Projecto de acordo para o Oeste de África. Portugal
oferece-se para dar terra.
Como é comum nestes casos, no citado jornal especulava-se fortemente sobre a existência de convénios secretos com o governo português e agentes judaicos, que dariam àqueles um Estado independente em solo de Angola. Mais dizia o periódico que esses judeus seriam provenientes da Alemanha, da Áustria e de vários outros lugares da Europa Oriental. O jornal também adiantava que tal situação a ser constituída em Angola seria nos primeiros tempos tutelado pela Sociedade das Nações. A notícia finalizava com a afirmação de que o governo português e o Private Inquires (Inquéritos Privados) do Governo de Sua Majestade Britânica teriam anuído integralmente ao plano.

Perante o assomar de todas estas notícias postas a circular, o governo português pronta e categoricamente as desmentem, quer perante a agência noticiosa Reuter, quer perante o jornal judaico Jewish Chronicle.
Uma outra tentativa ocorreu em Dezembro de 1938. Desta vez a iniciativa partiu de um judeu francês de nome Jacques Politis, que pessoalmente se deslocou à capital portuguesa. O que o acalentava neste novo empreendimento era unicamente arranjar um lugar seguro para centenas de milhares de judeus que corriam sérios riscos. Este plano não anunciava a constituição de nenhum lugar autónomo judeu no território português de Angola. O projecto de Jacques Politis não só concordava com o uso do português nas escolas e nos assuntos políticos e oficiais, como considerava que o uso da língua portuguesa fosse obrigatória entre todas as famílias judias lá instaladas. Mais ainda: caso Angola fosse atacada, cada colono judeu se empenharia na luta ao lado das forças militares portuguesas.

Em todas estas complexas movimentações conducentes à instalação de judeus em Angola, foi também referenciada, em 1938, a presença em Lisboa do escritor judeu alemão Stefan Zweig, isso como representante da Freeland League Jewish Territorial Colonization (Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial – Em fuga de Hitler e do Holocausto, Irene Flunser Pimentel, A Esfera dos Livros, pág. 87).

Precisamente no ano em que tudo isto decorria, aconteceu, em França (Julho de 1938) a Conferência de Évian (4), especialmente marcada para proceder ao estudo sobre a questão dos judeus residentes em vários territórios. Estiveram lá presentes trinta e um países, mas nenhum se mostrou verdadeiramente interessado em aceitar judeus nos seus territórios. Foi nesse encontro internacional que, apesar de tudo, nasceu uma nova organização, isto é: a Comissão Intergovernamental, conhecida pelo acrónimo de I.G.C. (5). Esta entidade, presidida por Sir Herbert Emerson, viria a ter contactos com as autoridades nacional-socialistas do III Reich, conducentes ao abandono do território alemão por centenas de milhares de judeus.
Nos finais de Outubro de 1938 o próprio governo hitleriano mostrou concordância em negociar com a IGC, tendo em Dezembro desse mesmo ano se deslocado a Londres, com esse objectivo, o presidente do Banco Central Alemão, Hjalmar Schacht. Tal programa de saída de judeus da Alemanha teria que se processar em várias etapas e ser precedido de uma compensação financeira para o III Reich. Estas negociações falharam porque os Alemães e a outra parte interessada nunca chegaram a um acordo financeiro que fosse satisfatório. Na realidade os Alemães exigiram verbas fabulosas.
Uma outra oportunidade para a concretização da instalação de judeus em Angola, surgiu em Junho de 1939. Foi o seu promotor o dr. Augusto d’Esaguy, um destacado membro da comunidade judaica de Lisboa e presidente da comissão portuguesa para a assistência aos refugiados judeus (Comassis) (6), que visitou em Londres sir Herbert Emerson, tendo-lhe transmitido a ideia que o novo governador de Angola, o seu amigo dr. Mano, estava receptivo à ida para lá de judeus.
Ainda sobre esta questão, ver Angola – A Terra prometida no “Império”? Os projectos para uma colonização israelita em Angola, Ansgar Shaefer, Historia, Ano XVII (Nova Série), nº 9, Junho de 1995, págs. 32-35. Também de Ansgar Shaefer, ler o seu importante capítulo: Sião em Angola, págs. 77-92, no livro Israel, Ontem e Hoje, livro organizado por Esther Mucznik e Joshua Ruah, editado pela Difel. Ainda para completar os conhecimentos sobre este tema, ver O projecto de colonização judaica em Angola/O debate em Portugal da proposta da ITO (Organização Territorial Judaica) – 1912-1913, in Clio, Revista do
Centro de Historia da Universidade de Lisboa, vol. 6, 1987-1988, págs. 79-105.

Continuando sobre este assunto, ver A colonização judaica em Portugal e nas colónias: um israelita russo, membro do Conselho de Estado e do Supremo Tribunal de Moscow, veio expressamente a Lisboa tratar do assunto, jornal A Capital, Lisboa, 20/5/1912, e o livro de Jorge Martins, Portugal e os Judeus (Volume III), editado pela Documenta Histórica (Série Especial), Nova Veja, Lda, capítulos 1.3. Projectos sionistas em Portugal, 13.1 Theodor Herzl e o projecto da colónia judaica em Moçambique, 1.3.2. O projecto republicano de colonização judaica de Angola, págs. 67-80.
E quais eram os ecos, em Portugal, de todas estas movimentações? Eram de enorme desconfiança, já que os portugueses, perante uma massa tão grandiosa de colonos judeus, receavam (não sem razão, diga-se) que isso representasse o fim da soberania portuguesa em Angola. Além de tudo o mais os portugueses nunca se tinham esquecido que durante o final do século XIX os colonos alemães tinham realizado uma tentativa para a Alemanha anexar o território de Angola. Por isso, a aceitação de colonos alemães, judeus ou não, em Angola, foi vista com enorme desconfiança pela parte das autoridades portuguesas. No prato da balança
pesou sempre em última análise a razão de eles serem alemães e constituírem um factor perigoso a ter em devida conta.
Segundo fontes do Anuário Demográfico de Portugal de 1941, em 1940, o quadro da população em Angola era de 3.737.918 habitantes, desta maneira distribuída: 3.665.800 pretos (98,07%), 44.083 brancos (1,18%) e 28.035 mestiços (0,75%). Se fossem lá instalados 5.000.000 de judeu o desequilíbrio seria absoluto o que de modo algum, como se compreenderá, Portugal estava disposto a aceitar.
Os tempos eram de enorme instabilidade política no mundo, e especialmente na Europa. Nesse sentido o próprio Foreign Office (7) britânico receava que as suas colónias africanas confinadas com Angola e Moçambique estivessem ameaçadas por judeus alemães instalados em Angola. Para que se compreenda melhor a situação deixamos aqui a seguinte nota que o mesmo emitiu:
(...) nós devemos decidir desde já apormo-nos a qualquer aproximação dos portugueses com o assunto e não podemos tolerar a presença de um grande número de judeus alemães em Angola durante o tempo da guerra, que pode ser uma fonte de perigo para as nossas colónias africanas.
Por último, convém aqui referir que existiu um derradeiro e muito poderoso motivo que naturalmente obstou a que milhões de judeus fossem acolhidos em Angola. Em 11 de Abril de 1933 fora promulgado o Acto Colonial, no qual constava através do Título I, Garantias Gerais, Artº 2º, o seguinte:
(...) É da essência orgânica da Nação Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir
e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas que neles se compreendam, exercendo também a influência moral que lhe é adstrita pelo Padroado do Oriente.
Desta forma muito firme e determinada ficava estabelecido que Portugal tinha em África uma missão imperial como difusora da civilização cristã e ocidental, e daí, a nação portuguesas, não admitir ou aceitar quaisquer outros planos que pudessem reduzir ou até levar à perda irreparável da secular presença lusa em África, nomeadamente sobre Angola. Portugal, com extremo orgulho e legitimidade histórica, não admitia que a soberania que possuía em terras de África, herdadas dos seus maiores, devesse ser discutida em Genebra, em Paris, em Londres, em Berlim, em Washington ou Roma.
Deve-se aqui acrescentar que a citada organização que nos começos deste capítulo focamos (I.T.O.) foi fundada em 1905 por Israel Zangwill, um escritor judeu de nacionalidade britânica (será dele o famoso, quanto equívoco, slogan sobre a Palestina: «A terra sem povo para um povo sem terra», motivada por uma cisão havida durante o 7º Congresso Sionista, tentou igualmente implementar um Lar Nacional Judaico no Canadá e na Austrália, mas as respectivas populações foram totalmente contrárias a tais projectos. Perante esses resultados negativos a I.T.O. enviou também expedições à Mesopotâmia (Iraque) e à Cirenaica (Líbia). Todos estes esforços resultaram em vão.
Todavia, entre 1907 e 1914, conseguiu instalar nos E.U.A., em Galverston (Texas) uma pequena comunidade judaica de cerca de 9.000 pessoas. Na realidade a I.T.O. defendia a teoria de que um Lar Nacional para os Judeus poderia ser instalado em qualquer outro lugar que não a Palestina, ao contrário do que defendia a corrente do sionismo político de Herzl, que sempre teve a Palestina como a sua grande meta. Também uma das razões relevantes que levaram os círculos judeus territorialistas a mostrarem grande interesse por Angola deveu-se ao facto de Portugal não ter uma ideologia anti-semita, garantindo, assim, aos judeus os mesmos direitos dos cristãos.

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António José dos Santos Silva
(um excerto do seu livro Medinat Yisrael e Palestina – Raízes e razões de um conflito)



(1) – Turks, Arabs and Jewish immigration, N. Mandel, págs 95 e segs.
(2) – Dossier do Conflito Israelo-Árabe, Editorial Inova Limitada, págs. 66-77.
(3) – Convém igualmente mencionar que, mais tarde, Roosevelt teve também em mente fazer um pedido ao governo português para a instalação de judeus em Angola. Foram estas ideias (e outras) de activa solidariedade à causa judaica, que teriam motivado um senador americano, que teve uma conversa com o presidente Roosevelt, a afirmar: «sinto que o presidente será o novo Moisés que conduzirá os filhos de Israel para fora do deserto.» (Palestine Post, 6 de Março de 1944). Embora, se sinta, que essa afirmação possa estar em contradição com o queefectivamente Roosevelt tinha na ideia, ou seja: este não sugeria uma instalação de judeus no território da Palestina... antes concretamente em Angola.
(4) – Não confundir a Conferência de Évian, que aqui neste livro é referida, com os célebres Acordos de Évian, firmados em 18 de Março de 1962 entre a França do general Charles de Gaulle e os rebeldes argelinos da FLN-Frente de Libertação Nacional (guerra da Argélia – 3 de Novembro de 1954 a 3 de Julho de 1962), que conduziria a nação argelina à independência. A citada Conferência de Évian herdou o nome da pequena localidade francesa de Évian les-Bains.
(5) – Portugal recusou sempre participar nos trabalhos da IGC subsequentes à Conferência de Évian, já que o governo português não tinha sido convidado para assistir à mesma e, como tal, afirmou, não fazia sentido que fosse convidado «para executar medidas em cuja elaboração não tomamos parte e de que não tínhamos conhecimento.»
(6) – Outra relevante entidade judaica que prestou activa assistência aos refugiados judeus que aportaram a Portugal, antes e durante os duros anos da Segunda Guerra Mundial foi o CIL (Comunidade Israelita de Lisboa). Foi presidida pelo judeu sefardita português, o economista Moisés Amzalak (amigo e colega de António de Oliveira Salazar na Universidade de Coimbra), tendo como vice-presidente outro judeu sefardita português, o médico Elias Baruel. Outro importante dirigente foi Samuel (Sam) Levy. O apoio financeiro dos judeus americanos do Joint foi fundamental para esta estrutura ter podido funcionar da forma mais proficiente. Para saber mais sobre o CIL consultar o sítio na net
http://www.cilisboa.org/
(7) – Designação do Ministério dos Negócios Estrangeiro do Reino Unido.

sábado, 17 de outubro de 2009

Brasileira Processada Por Forjar Ataque Neonazi


A Procuradoria de Zurique, Suíça, acusou oficialmente a cidadã brasileira Paula Oliveira, que prestou declarações falsas à polícia sobre um ataque de neonazis, pelo crime de induzir a Justiça em erro, divulgou hoje a imprensa do Brasil.

A advogada brasileira, 26 anos, alegou ter sido agredida, a 09 de Fevereiro, por um grupo de neonazis na cidade de Dubendorf, a cerca de cinco quilómetros de Zurique, quando falava ao telemóvel com a mãe.
Segundo o jornal O Estado de São Paulo, a cidadã brasileira pode vir a ser condenada até três anos de prisão por falso testemunho à Justiça.

(...) Dez dias depois do alegado ataque, a cidadã brasileira admitiu à polícia suíça ter encenado tudo, que não estava grávida e que se tinha auto-mutilado.

(...) O caso suscitou na altura indignação na opinião pública suíça e reacções de desagrado do Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, entre outros altos responsáveis brasileiros, contra "um caso com uma clara motivação xenófoba". [leia a notícia na íntegra]
Desta vez parece que o embuste não correu lá muito bem... rsrsrsrsrsrsrs

terça-feira, 13 de outubro de 2009

América... América... América...


América. Em quase todos os jornais, revistas, noticiários a notícia apareceu. Um Nóbel bem ou mal entregue. Um Nóbel merecido ou não. Um Nóbel atribuído a um Presidente cuja eleição, só por si, já tinha sido polémica - ou talvez não. Mas nos média - sem que isso constituísse alguma surpresa para nós - não apareceram, com o mesmo impacto, outras notícias que nos revelam a quantidade de segredos que este país guarda. Por outras palavras, a manipulação mediática leva a que a América possa continuar a coordenar e a controlar quase todas as linhas de pensamento. Se assim não fosse, como poderia passar despercebidas todas as mudanças na história do atentado na cidade de Oklahoma? América...

Afeganistão. O presidente Barack Obama - ESSE MESMO: O DO "PRÉMIO NÓBEL DA PAZ!!!!! - e o Congresso estão lutar pelo agravamento da guerra no Afeganistão. Após oito anos de operações militares - o que custou aos EUA 236 biliões de dólares, o comandante Americano no Afeganistão alertou para a ameaça de "fracasso" ou, por outras palavras, "derrota".

A verdade é a primeira vítima da guerra. A maior mentira da Guerra do Afeganistão é que "nós temos que combater lá os terroristas e assim não temos de lutar com eles em casa". Políticos e generais continuar usando esta afirmação para justificar uma guerra que eles não conseguem explicar ou justificar.

Muitos Norte-Americanos ainda acreditam nesta mentira porque também acreditam que os ataques de 11 de Setembro vieram directamente de bases da al-Qaida no Afeganistão e de movimentos Talibans.

Isso não é verdade. Os ataques de 11 de Setembro foram planeados na Alemanha e na Espanha e conduzidos, principalmente, de bases Americanas na Arábia Saudita com o objectivo de punir a América pelo suporte à repressão de Israel contra os Palestinianos.

Os Talibans, um movimento religioso, anti-Comunista da tribo Pashtun, ficou totalmente surpreendido pelo 11 de Setembro. Osama bin Laden, que foi culpado por esse acto, estava no Afeganistão como convidado porque era um herói nacional por ter combatido contra os Soviéticos nos anos 80 e estaria a ajudar a luta dos Talibans contra o regime Comunista Afegão.

Amérca. Afeganistão. Irão.
Dois senadores republicanos não estão suficientemente felizes com as duas grandes guerras e com as várias outras escaramuças ao longo da costa leste de África que os Estados Unidos estão a travar. Eles querem que as tropas Americanas iniciem uma guerra genocida, a uma escala global, contra o Irão. Por quê? Porque não querem colocar "muita pressão sobre Israel".

Os senadores republicanos Lindsey Graham (SC) e Saxby Chambliss (GA) foram à televisão dizer que os militares Americanos não deviam apenas bombardear as instalações nucleares do Irão, mas também lançar uma guerra do "tudo ou nada" contra o país Persa, com o objetivo de o destruir.

E por que deveriam os soldados dos EUA arriscar as suas próprias vidas para mater Iranianos inocentes? Para proteger Israel, claro.

América. Afeganistão. Irão. Israel. Acabo quase como comecei.
Depois de tomar conhecimento desta decisão do mais recente Prémio Nóbel da Paz - ainda alguém se surpreende?... - achei, mesmo assim, que seria necessário mais uns pequenos esclarecimentos para os mais distraídos ou com memória curta.

Em primeiro lugar,
foram os Americanos os primeiros a fornecer material nuclear aos Iranianos; em segundo lugar, um memorando secreto da Casa Branca, de 1969, alertou para os "perigos das armas nucleares de Israel" - claro que os excelentíssimos senhores "jornalistas de investigação" andam tão atarefados que nunca reparam neste tipo de documentos... Finalmente, em terceiro lugar, recomendo novamente a leitura desta notícia, já publicada pelo Revisionismo em Linha aqui.


América... América... América...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Nós Somos o Quê?!...



... "anti-semitas"?... Mas porquê? Será porque divulgar notícias como esta:


Um clérigo Sionista defendeu que o regime Israelita deveria dar "luz verde" ao massacre de Árabes como retaliação aos ataques Palestinianos.

Num artigo publicado no Eretz Israel Shelanu,Shmuel Eliyahu, rabino-chefe de Safed, defendeu que o regime Israelita deveria oficializar a permição "da vingança contra os Árabes para restaurar a dissuasão de Israel".

"Não me estou a referir a pessoas a título individual. Estou a falar sobre o estado. [Israel] tem que lhes causar dor ao ponto deles gritarem 'Já chega', até o ponto deles cairem de de cabeça e gritarem 'ajuda'. Não por uma questão de satisfazer a necessidade de vingança, mas para efeitos de dissuasão", escreveu ele.

No boletim Eliyahu propõe que "pendurem as crianças" na árvores, os filhos daqueles que atacaram o Mercaz Harav Yeshiva.

O rabino, acrescentou: "Nós vamos ficar aqui. Temos de viver com aqueles que entendem muito bem a linguagem da vingança".
[leia a notícia na íntegra].


Ou será por divulgar - ou recordar - notícias como esta (que nem sequer é nova):

Um responsável médico Israelita e especialista em ética na medicina pediu o julgamento dos médicos responsáveis por milhares de experiências não autorizadas e muitas vezes ilegais em crianças pequenas, idosos e pacientes psiquiátricos em hospitais Israelitas. [E EU A PENSAR QUE ESTE TIPO DE COISA SÓ TINHA EXISTIDO NA ALEMANHA NAZI...].

Uma investigação de vigilância do governo revelou que os investigadores em 10 hospitais públicos administraram drogas, realizaram testes genéticos não autorizados ou realizaram cirurgias em pacientes incapazes de dar consentimento ou sem obter aprovação do ministério da saúde. [ESTES MÉDICOS ERAM NAZIS! ERAM! DE CERTEZA! JAMAIS UM MÉDICO JUDEU OU SIONISTA IRIA FAZER TAMANHA MALDADE...].


Podem ler aqui a notícia na íntegra.


Nós somos muita coisa. Mas não somos hipócritas nem cínicos. E gostamos, especialmente, de "chamar os bois pelos nomes" (ditado Português).

sábado, 19 de setembro de 2009

"Negacionistas" em... Israel!


O último lugar do mundo onde talvez se espere encontrar “negacionistas” do Holocausto será em Israel. No entanto, uma recente investigação da Universidade de Haifa apurou que um espantoso número de 40,5 por cento de Árabes Israelitas afirma que o Holocausto não aconteceu. O resultado encontra-se no mais recente índice das Relações entre Árabes e Judeus em Israel, uma pesquisa anual conduzida pelo Professor Sammy Smooha desde 2003. Quando, inicialmente, ele colocou a questão do Holocausto em 2006, 28 por cento dos cidadãos Árabes duvidaram da sua autenticidade. A negação do Holocausto é predominante nos mundos Árabe e Muçulmano. [leia a notícia na íntegra]

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Porque os Irritamos Assim Tanto?... (II)


Porque irritamos assim tanto quem, detentores da verdade e de todo o conhecimento, apenas deveriam mostrar essa mesma verdade e esse mesmo conhecimento? Será porque, afinal, eles estão bem longe da verdade? Será porque, afinal, o único conhecimento que possuem está realcionado com as inúmeras formas de lançar areia para os olhos das pessoas?
Porque irritamos tanto quem tem sempre provas e testemunhos de tudo e mais alguma coisa e que, supostamente, faz a "demolição" de tudo o que diz respeito ao revisionismo histórico? Será porque, afinal, essas provas e esses testemunhos são, de forma esmagadora, pouco credíveis - raramente são apoiados por estudos, análises, testes forenses, etc. Por exemplo, na questão do Holocausto, basta ser "sobrevivente", basta dizer que "esteve lá", para se inundar os média com todo o tipo falácias!

E aparece o Revisionismo em Linha. Que irritação...

Se damos a conhecer figuras políticas marginalizadas pelos média, somos sempre rotulados de "qualquer coisa"...


Se damos a conhecer outros dados sobre a Segunda Guerra Mundial, normalmente ignorados pelos historiadores, somos sempre rotulados de "qualquer coisa"...

Talvez devessemos alterar o nome deste blogue. Os que irritam...

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Porque os Irritamos Assim Tanto?...


Porque existe o Revisionismo em Linha? Porque somos "radicais"? Porque somos "dementes"? Porque acreditamos em "teorias da conspiração"? Porque somos "nazis e anti-semitas" ou "racistas e xenófobos"? Será verdade que o Revisionismo em Linha existe porque as pessoas que lá colaboram são isso tudo e defendem isso tudo? EVIDENTEMENTE QUE NÃO!

O que acontece é que é mais fácil ofender de forma baixa e vil - reveladora, só por aí, da natureza das pessoas e instituições que o fazem - e procurar ridicularizar quem apenas possui uma outra forma de ver, analisar, compreender, questionar, etc., do que apresentar provas de que estamos errados. A seguir, se essa estratégia falha, passam à seguinte: tentar descredibilizar as capacidades intelectuais dos revisionistas - mesmo quando as deles estão bem longe de constituir algum exemplo de referência, pelo contrário! E quando tudo isto falha, resta-lhes pedir aos patrões que pressionem os chefes de Estado na aplicação de legislações punitivas contra quem, afinal, só pensa de forma diferente.

Procuramos falar do que poucos falam ou do que para alguns é incómodo. Procuramos com o "conselho de leitura" ou com os "livros da quinta" ajudar a perceber que existe outra bibliografia alternativa à que a historiografia oficial se baseia e defende ser essa a única "credível". Portanto, o Revisionismo em Linha não é, de uma vez por todas, um blogue que pretende "branquear" ou "fazer a apologia" de algum facto histórico ou regime político. Não limitamos os nossos comentários à Segunda Guerra Mundial e, particularmente, ao Holocausto - apesar de ser um assunto, de certa forma, previlegiado. Por isso, também percebemos perfeitamente a irritação de certos crentes afirmacionistas quando lêem isto ou isto - e, especialmente, isto (a demolição de um dos seus principais gurus!).

Para tudo isto, entre uma série de rótulos e acusações, a mais frequente é a de "anti-semitas". Somos "anti-semitas" sempre que criticamos a política de Israel; somos "anti-semitas" quando questionamos e duvidamos do facto histórico denominado "Holocausto"; e somos "anti-semitas" quando realçamos ambas as coisas e denunciamos não só a perseguição de que é alvo todo aquele que se atreve a ir contra a este estado de coisas "politicante correctas", como também quem são os que defendem a todo o custo essa mesma perseguição (leia-se "nova inquisição").

É por tudo isto que existimos, é por tudo isto que se irritam com a nossa presença! Mas, para mal deles, ainda vamos ficando por cá...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Robert Novak


Sabe o nome do conhecido jornalista americano (e personalidade da televisão) que publicou uma vez uma coluna a sugerir a existência de uma grande conspiração por detrás do atentado na cidade de Oklahoma, levantando questões sobre o envolvimento de um informador secreto federal?

Este mesmo jornalista irritava frequentemente o lobby Judeu com a sua cândida reportagem, que incluía provas de que Israel sabia que o USS Liberty era um navio Americano quando forças Israelitas o atacaram a 8 de Junho de 1967.

Se você adivinhou que o jornalista era
Robert Novak estava certo. No entanto, após a sua morte do veterano jornalista, amplamente divulgada , a 18 de Agosto, praticamente todas as descrições da notável carreira de Novak omitiram esses factos provocantes.

A 20 de Outubro de 1997, Novak chocou muitas pessoas com uma coluna no The Washington Post descrevendo como "questões graves e preocupantes" levantadas por Ambrose Evans-Pritchard, um distinguido jornalista britânico, que estava a sugerir que um misterioso imigrante Alemão Andreas Strassmeir - que estava a operar nos círculos “patriota" e "separatista Branco" nos Estados Unidos, pode ter sido um informante disfarçado que se deslocava com Tim McVeigh no dia anterior ao atentado de Oklahoma.

Novak realçou que Evans-Pritchard “não era nenhum lunático da teoria da conspiração lunática", mas sim que "era conhecido em Washington pela exactidão, pelo trabalho e pela coragem" e que ele tinha "oferecido pistas para a descoberta de um padrão de mentiras e enganos depois de Oklahoma que, ao serem verdadeiras, aproximaria este caso do Vietname e Watergate, num minar da confiança dos cidadãos americanos no seu governo."

Continue a ler mais sobre este assunto
aqui.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A Síndrome de Wilkomirski: História Falsificada (III)




(Continuação)

O ambiente receptivo

Esses impressionantes sucessos não são imagináveis sem um contexto receptivo, ou até uma procura ansiosa por histórias desse tipo. Inclui-se, nesse contexto, todo o aparato cultural e científico que se dedica ao Holocausto: as editoras, os meios de comunicação, os psicólogos e os historiadores. Todos eles se dedicam à memória e à escrita da História.

A editora Suhrkamp se manteve num profundo silêncio após o desmascaramento. A edição de capa dura estava quase totalmente vendida e a de bolso continuou a ser vendida até o final, sem maiores comentários. Quando a editora soube das dúvidas sobre a autenticidade, ainda antes da publicação, pressionou Wilkomirski a fazer uma declaração sobre a veracidade de seu relato. Wilkomirski escreveu, num posfácio pouco consistente que entraria na justiça contra o fato de ter recebido, depois da guerra, uma outra identidade, sem seu consentimento. E acrescentou: “A verdade sancionada pela justiça é uma coisa, a verdade de uma vida é outra”. 13 Essa afirmação pode ser entendida da seguinte forma: a verdadeira identidade deve ser uma falsificação e a identidade falsificada deve ser a verdadeira.

Seu editor nos Estados Unidos, Arthur Samuelson, da Schocken Books, declarou que a diferença entre facts and fiction não interessava. Segundo ele, Fragments “is a pretty cool book… It’s only a fraud if you will call it non-fiction. I would then reissue it, in the fiction category. Maybe it’s not true – then he’s a better writer!”14 Não é o autor que falsifica, mas sim o leitor, quando afirma que no caso de Fragmentos se trata de um relato factual.

Suspeita também foi a aprovação dos historiadores após a publicação do livro. Daniel Goldhagen declarou: “Esse fascinante livro traz ensinamentos inclusive para aqueles que estão familiarizados com a bibliografia sobre o Holocausto. Ele atingirá profundam
ente a todos”.15 Também o diretor do Centro de Pesquisa do Anti-semitismo, em Berlim, Wolfgang Benz, declarou: “Um relato que fornece ao leitor um acesso à complexa tragédia, de uma forma superior a qualquer outro documento”. Só Raul Hilberg, desde o início, considerou que o livro não merecia crédito. “Eu diria, que esse livro, na forma em que está escrito, se localiza em algum lugar entre um máximo de improbabilidade e a total impossibilidade”.16 Também Claude Lanzmann, diretor do filme Shoa, considerou que o livro não merecia crédito. Mas, da mesma forma que Hilberg, não deu muita publicidade às suas dúvidas. Hilberg queria, primeiro,
ler o livro em alemão, e Lanzmann temia um escândalo. O livro “me entediou demais”, disse Lanzmann. “É um livro ... absolutamente frio. Não é sério e não tem qualquer estrutura”.17 Assim, enquanto a falsificação era publicamente louvada, as manifestações de reserva foram apenas tácitas.

Suspeito também foi o papel de vários psicólogos. A revista psicoanalítica alemã Psyche proclamou Wilkomirski um herói psicológico-literário. “Os poetas concedem a seus heróis a graça do esquecimento através da derrota ou através da morte. A realidade parece ser menos benevolente. Binjamin não morre, não chora, ele fica obrigado a rememorar. No entanto, a estranha melodia do livro consiste num único soluço e numa única lamentação. Seu choro é prosa”.18

Quando o escândalo se tornou público, o que mais se discutiu foi sobre as razões que teriam levado Bruno Dössekker a assumir a máscara de Binjamin Wilkomirski. Foram apresentadas desculpas a seu favor: ele seria supersensível, frágil ou até doente. Contra
Ganzfried, se argumentou que o desmascaramento feito friamente, em público, visaria à destruição de Dössekker, e poderia levá-lo ao suicídio.

A comunidade científica foi enganada em vários congressos pela pseudociência de Elitsur Bernstein, segundo a qual uma reconstituição histórica seria possível através de memórias da primeira infância. Essa comunidade também se deixou impressionar com o fato de que Bernstein agia como um curandeiro, carregando consigo seu paciente e exibindo-o em público. E a opinião pública, por sua vez, esteve extremamente predisposta a cumular o autor com prêmios.

De onde vinha essa disposição parailudir e auto-iludir-se? Segundo Pascal Bruckner, essa disposição faz parte de uma tendência dominante de sentir-se atraído pela aura da inocência19 e de transformar a vítima num objeto de identificação positivo. Essa tendência desemboca – na opinião do psiquiatra Hans Stoffels – no fascínio pelo trauma.20 Desde 1980, as publicações sobre o tema trauma espiritual vêm se multiplicando, e não mais se buscam as origens de traumas apenas em vivências dentro de campos de concentração e em meio a guerras civis, mas também em acidentes no cotidiano. O assim chamado stress pós-traumático (PTSD) foi proclamado uma “nova doença popular, à semelhança do diabetes e da pressão alta”.21

Essa inclinação para a autovitimização explica o interesse do público por Benjamin Wilkomirski. Não se trata apenas de tentar entender as vítimas e utilizar sua perspectiva para um confronto crítico, mas trata-se de colocar-se no mesmo nível das vítimas. Isso pode levar a ações absurdas, como a da idealizadora do Memorial do Holocausto, em Berlim, Lea Rosh, que, não sendo judia, assumiu aos 18 anos o prenome judeu, e lidava com o Memorial como se fosse sua propriedade privada – ainda que contra a vontade das organizações judaicas. De forma patética, ela declarou ser capaz de imaginar muito bem como é ser assassinado. E na inauguração do Memorial, ela causou indignação, quando quis enterrar no local o dente molar que, supostamente, fora de um judeu assassinado, e que ela achara e trouxera, alguns anos atrás, do campo de extermínio de Belczec.

Essa luta pela autoinclusão entre as vítimas também atinge a “segunda geração” dos sobreviventes. Nos meios ligados à cultura terapêutica norte-americana, se observa – segundo a jornalista Ruth Franklin – uma tendência em considerar as eventuais feridas da própria infância como muito mais graves do que as vivências reais dos antepassados. Através de “complicadas manobras pósmodernas, pós-estruturalistas e através de teorias traumatológicas”, essas pessoas seriam capazes de se transportar para as experiências do Holocausto, e reivindicar a mesma autenticidade e a mesma importância que seus pais. Daí teria surgido uma literatura de entretenimento “neo-wilkomirskiana”, que estaria remetendo as experiências verdadeiras para um segundo plano. Seria a tentativa de buscar a “glória a partir do trauma” presente na atual cultura norte-americana, que levaria essa nova geração a esse tipo de estratégia. 22

Por que se fazem falsificações? É por que se trata de pessoas fracas, merecedoras de comiseração, ou até de pessoas traumatizadas? De forma alguma. Hans Stoffels chama a atenção para o fato de que a psiquiatria mais antiga já conhecia um conceito apropriado para esse fenômeno, o da “Pseudologia Phantastica”, e que entre os ilusionistas e os mentirosos patológicos apresenta, sobretudo, duas características: primeiro, “um enorme esforço para obter posições de destaque e reconhecimento, motivado pelo desejo insaciável de aumentar seu valor próprio; e, segundo, ... uma descomunalmente forte capacidade para a fantasia, às vezes, muito original, com um série de visões muito concretas e idéias bem conectadas, eventualmente derivadas de efeitos externos, como romances ou o cinema”.23 Ao contrário daqueles que ficam sonhando ou aqueles que transformam sua enorme fantasia em atividade literária, os ilusionistas patológicos impõem – com sua grande capacidade de enganar – sua fantasia àqueles que estão ao seu redor, passando a exercer papéis reais e, possivelmente, vêm a perder a noção de sua verdadeira situação. Dössekker já apresentava ataques epilépticos na escola, e eles se manifestavam através de representações muito bem executada.


As vantagens da mentira em relação à verdade

A tentação de falsificar costuma ser potencializada pelo fato de que a mentira, ao contrário da verdade, possui uma força criativa. Hannah Arendt, por ocasião das discussões em torno de seu
livro sobre Eichmann em Jerusalém e as controvérsias em torno dele, descreveu o que efetivamente é a verdade, e quais são as vantagens da mentira sobre a verdade. Ela distinguiu entre três tipos de discurso: mentir, dizer a verdade, e dar destaque a determinadas realidades em favor do interesse de um grupo. No primeiro caso, segundo Arendt, o mentir sempre constitui “em primeiro lugar, uma ação”, enquanto o dizer a verdade não o é. O dizer a verdade
é algo totalmente independente, e por isso sua posição dentro da discussão pública e da política é complicada. Pois, “na vida política praticamente não existe um tipo humano que desencadeie dúvidas tão fortes sobre sua veracidade quanto aquele que deve dizer a verdade por razões profissionais, que sugere representar uma harmonia preestabelecida entre interesses e verdade. Em contrapartida, aquele que mente não precisa recorrer a meios tão duvidosos para atingir seus fins políticos. Ele tem a vantagens de estar sempre em meio à política. Seja lá o que ele disser, não se trata apenas de algo dito, mas de uma ação. Ele diz o que não é, porque
deseja modificar aquilo que é. Ele é o grande beneficiário do inegável parentesco entre a capacidade humana de modificar as coisas e a misteriosa capacidade de dizer ‘o sol brilha’, enquanto lá fora está chovendo aos cântaros”.24

Não se acredita naquele que diz a “verdade por profissão”, porque tanto a verdade quanto o dizer a verdade correm perigo tão logo interesses entram em jogo. A aparente harmonia entre verdade e interesse é praticamente impossível – e isso não acontece só na esfera política. Nós vimos como o interesse de uma geração consegue não só manipular a verdade, mas também modificar a verdade em sua totalidade.

Depois de anos de silêncio, tanto de parte dos carrascos quanto das vítimas, a verdade passa agora a ser manipulada pela força dos interesses em jogo. E essa situação se complica com os acréscimos que vão desde o autoludibriamento até o ludibriamento dos outros. Isso não significa só que – como diz Hannah Arenndt – “o mentiroso se transforma tanto mais fácil em vítima
de suas próprias mentiras quão mais bem sucedido ele se mostra na sua difusão pelo mundo”, mas “que o ludibriador, exatamente por acreditar nas suas próprias mentiras, parece merecer muito mais crédito do que aquele que afirma uma inverdade, de forma consciente e soberana, e com isso arma sua própria arapuca”.25

Wilkomirski foi, sem dúvida, tão bem sucedido por causa da relação simbiótica que estabeleceu com seu público. Ele se entregara de forma total ao papel que se auto-atribuíra, e, da mesma forma, o público estava disposto a entregar-se de forma total ao seu mundo e à sua realidade.

Contrapor-se à corrente dominante e insistir na verdade não representa uma questão moral nem uma questão de distinção entre literatura e um Kitsch sobre o Holocausto ou sobre as vítimas. A defesa da verdade é uma defesa da dignidade e da justiça para todos, para as vítimas, para os leitores e para os falsificadores. De forma alguma, é indiferente qual história se conta, se uma história real ou uma história inventada. O espetáculo proporcionado por Bruno Dössekker se baseava no antigo clichê anti-semita do pobre e judiado judeu, que como uma pessoa fraca serve ao mesmo tempo ao anti-semitismo e a um sentimentalismo meloso. Paul Parks fez seu papel na novela do soldado americano negro que, juntamente com os soldados brancos, derrubou o portão de Dachau. E a literatura de entretenimento da “segunda geração” simula realidades que empurram as memórias reais dos pais para o esquecimento. Testemunhas se transformam em matéria-prima – observou a crítica literária Ruth Klüger –, “em objeto, um objeto desofrimento que é explorado”.26 Todas essas falsificações servem para uma mitificação simplificadora, que destrói a multiplicidade da realidade – uma realidade de ações e de experiências humanas –, em favor de uma simples mentira.

Paul Ricoeur lembrava dos esforços para desmistificar a revolução francesa. O leitor espera – escreveu ele – que o autor lhe apresente uma “narrativa verdadeira”. Entrementes, sabemos que os leitores justamente não esperam isso. O pacto de confiança é rompido por ambos os lados. Por isso, torna-se cada vez mais necessário recorrer àquilo que Ricoeur chama de “confronto dos testemunhos”, sua contestação, sua crítica, num contexto de dissenso, o qual deve transcorrer numa discussão pública, ali onde “a Ciência Histórica, em última análise, cumpre seu sentido”.27 São os leitores – diz Ricoeur –, e dentro dos leitores os cidadãos que através desse debate decidem sobre a verdade do conteúdo.



13 WILKOMIRSKI, op. cit., p. 143.
14 LAPPIN, Elena. The man with two heads. Granta, 66, 1999.
15 Na capa da edição alemã do livro.
16 Raul Hilberg, no programa “60 minutes”, da CBS, em 7 de fevereiro de 1999. Cf.
também: Peskin, Harvey. Holocaust denial: a sequel. The vase of Binjamin Wilkomirski’s
“Fragments” (The Nation, 19 de abril de 1999).
17 LANZMANN, Claude. Der organisierte Übergang zum Vergessen (em entrevista
com Sebastian Hefti e Wolfgang Heuer). In: GANZFRIED, Daniel. … alias
Wilkomirski. Die Holocaust-Travestie (editado por Sebastian Hefti sob encomenda do
Deutschschweizer PEN Zentrum). Berlim: Jüdische Verlagsanstalt, 2002, p. 198.
18 Johannes Dirschauer, em Psyche, no 7, 1998, p. 773.
19 BRUCKNER, Pascal. La tentation de l’innocence. Paris: Livre de Poche, 1995.
20 STOFFELS, Hans. Das Trauma als Faszinosum. Zur Psycho(patho-)logie von
Pseudoerinnerungen und Pseudoidentität. In: DIECKANN, Irene & SCHPOEPS,
Julius H. (eds.). Das Wilkomirski-Syndrom: eingebildete Erinnerungen oder von der
Sehnsucht, Opfer zu sein. Zurique/Munique: Pendo, 2002.
21 Ibid., p. 175.
22 FRANKLIN, Ruth. True memory, false memory, and the identity theft (The New
Republic, 31 de maio de 2004).
23 STOFFELS, loc. cit., p. 167.
24 ARENDT, Hannah. Wahrheit und Politik. In: Zwischen Vergangenheit und Zukunft.
Übungen im politischen Denken I. Munique/Zurique: Piper, 1994, p. 352 e seg. (parte
IV, 2o §).
25 Op. cit., p. 358 (parágrafo anterior àquele que começa com uma citação de Karl
Jaspers).
26 KLÜGER, Ruth. Von hoher und niedriger Kunst. Göttingen: Wallstein, 1996, p. 36.
27 RICOEUR, loc. cit., p. 737.

domingo, 23 de agosto de 2009

A Caça aos Hereges do Século XXI




















As “verdades” impostas pelos juizes jamais tem sido capazes de se sustentar

Durante a Alta Idade Média, a nossa civilização vivia no meio de uma atmosfera carregada de homicidios, de intolerância e de fanatismo religioso, onde os hereges e as bruxas eram perseguidos sob a acusação de terem relações com o diabo. Mas, como a historiografia actual salienta, nenhum tribunal conseguiu alguma vez demonstrar satisfatoriamente a existência destas supostas relações e, muito menos, a existência do Maligno. Tal coisa, no entanto, não era obstáculo que detivesse as autoridades religiosas e seculares que, dominadas pela histeria colectiva, declaravam como "prova" o que até agora resulta impossível de se provar e, sobre esta base, sentenciavam para seus auto-declarados inimigos a um horrível destino.

A morte destas indefesas vítimas na fogueira, longe do bem intencionado propósito de purificar pelo fogo a alma e o corpo pecador, e com isso albergar a remota esperança de misericórdia ante o Altíssimo, apontava antes para a submissão das massas através da chantagem emocional e do terror psicológico. O terrível espectáculo de ver um ser humano devorado pelas chamas, cumpria eficazmente a sua função dissuasiva.

A protecção da fé medieval dependia de uma grande máquina de religiosos, magistrados, corpos de sábios e outros voluntariosos cúmplices, cujos ofícios nos tribunais inquisitoriais e processos de bruxas se distinguiam por um imenso ódio contra os acusados. Cegados pelo fanatismo, estes guardiões da religião do Estado tinham a firme crença de que com tais juízos contribuíam para a luta contra o demónio e contra o seu reino do mal; e até acreditavam merecer retribuições divinas por cada vitima queimada nas piras. Nem suspeitavam que estes miseráveis que, mediante tais crueldades arbitrárias, não faziam outra coisa senão adoptar o papel do mesmíssimo Satanás e se converter em instrumentos para acrescentar a dor e as injustiças no mundo.

Nos nossos tempos, infelizmente, parece que as nossas autoridades ou não aprenderam ou querem ignorar as lições de uma das passagens mais sinistras da história. Assim, nos nossos dias, em pleno século XXI, vemos que as perseguições em defesa do sacro-santo Holocausto tomaram o lugar das perseguições de hereges e bruxas do século XVI. Os demonólogos contemporâneos vieram substituir com métodos brutais o Reductio ad Diabolicum pelo Reductio ad Hitlerum.
É assim que podemos estabelecer paralelos realmente assombrosos e preocupantes, entre as perseguições de revisionistas do século XXI e a desumana perseguição medieval de hereges e bruxas.
Depois de conhecer as verdadeiras práticas deste tipo de perseguição, seria muito ingénuo da nossa parte esperar que, por exemplo, os proeminentes revisionistas Ernst Zündel, Germar Rudolf, David Irving e Siegfried Verbeke tivessem sido sujeitos a um julgamento justo e imparcial, de acordo com as normas fundamentais do direito internacional.


Perseguição contemporânea de hereges

Deixando de lado alguns avanços humanitários conseguidos desde então quanto a medidas punitivas e restringindo-nos puramente ao que diz respeito à legislação, perseguição e argumentação, foi possível estabelecer as seguintes 22 semelhanças, bastante bizarras, entre a perseguição medieval de hereges e a perseguição contemporânea de revisionistas (na fraseologia inquisitorial: “negadores do holocausto”) nas “democracias ocidentais”:

1. Tal como os hereges cristãos eram inapelavelmente equiparados aos falsos predecessores (exemplo: os cátaros anti-cristãos), assim os revisionistas são todos falsamente equiparados com nazistas e fascistas.

2. Os perseguidos não são culpados de alguma acção criminosa. A grande ofensa está em que eles estudaram criticamente certas concepções oficiais (estatais) e fizeram públicos as suas descobertas; só por causa disso é que se fizeram puníveis de castigo, além de execráveis.

3. O seu crime é a não crença na religião oficial do Estado (dogma).

4. A acção vigorosa de chantagem/censura legal e social não deixa às pessoas dissidentes, críticas da verdade protegida por lei, outra alternativa que transmitir “ilegalmente” as suas opiniões ao público.

5. Eles são vistos como apostatas e, por causa disso, denunciados e perseguidos.

6. Na realidade, o principal objectivo deste tipo de perseguições não é castigar as vítimas, mas principalmente, lançar um aviso e colocar "cabeças ensanguentadas na picota", para escárneo e dissuasão de outros potenciais críticos à ideologia do Estado.

7. Os actos de acusação estão baseados numa lei ocasional (Malleus Maleficarum “Hexenhammer”, uma farsa jurídica ao estilo do Tribunal Militar Internacional - Nuremberg, a Lex Auschwitz, Loi Gayssot, entre outros), isto é, no tipo de axiomas político-religiosos contra os quais não se permite defesa alguma.

8. A parte acusadora dispõe de ilimitados recursos (financeiros) e tem de seu lado os mercantilistas de notícias. Os acusados, em geral, carecem quase até do indispensável e, encontram-se, desde o início do processo até a leitura da sentença, sob uma intensa acção de calúnia, com a opinião pública contra ele.

9. Os promotores e juízes são incapazes de provar a verdade das suas teses. Eles fazem referência meramente a conhecidas abstrações, santificadas pelo poder do Estado.

10. Com frequência procuram refúgio em acusações do tipo estereotípico e figurativo, não identificáveis objetivamente (“bruxaria”, “racismo”, “anti-semitismo”, “insulto à memória dos judeus assassinados”).

11. A verdade, ou a busca da verdade, é de pouco ou nenhum valor neste tipo de tribunal. Quando a crença prevalece, a ciência emudece. (1)

12. A auto-defesa que é feita com evidência científica e concreta é considerado como prova da justificativa das prisões.

13. Hæresis est maxima, opera maleficorum non credere (“O maior pecado está na negação do pecado”). Em nossos tempos: Hæresis est maxima, holocaustum non credere.

14. As pessoas que não acreditava em algumas partes das doutrinas religiosas recebiam a terrível designação de “hereges”. As pessoas que não acreditam em algumas partes do “Holocausto” recebem a terrível designação de “negacionistas”, “neo-nazistas”, “fascistas”, “anti-semitas”, etc. Todos eles serão entregados ao linchamento social (o equivalente ao “são bento” medieval), à ruína económica e à morte na fogueira.

15. Não se permite à defesa apresentar com evidência o que prove os argumentos dos defendidos. Em alguns países europeus, os defensores também podem ser presos. (2)

16. A contra evidência é só permitida (selectivamente) para legitimar a farsa jurídica. Nunca será aceite, senão sempre recusada em favor da “verdade” ideológica.

17. As declarações das testemunhas da parte acusadora serão sempre aceites, sem maior pedido de provas; as contradições e impossibilidades demonstráveis contidas em tais depoimentos serão sempre desconsideradas.

18. Nestes julgamentos, não há busca da verdade, somente busca de culpabilidade segundo a letra da lei do Estado.

19. Para os juízes é impossível absolver aos processados ou sancioná-los tenuemente; qualquer amostra de benevolência para o amaldiçoado réu significará a segura auto-destruição do magistrado.

20. Por dita razão, a condenação dos acusados é, de antemão, segura e indisputável, ficando completamente descartada qualquer esperança de um julgamento justo.

21. Para os veredictos desta classe de jurisdição é conferido um valor eterno e apolítico.

22. Tal como ocorreu durante a caça medieval de hereges, também nos nossos dias os mais viciosos excessos à hora de castigar os crimes de pensamento têm como palco a Alemanha. Neste país, dezenas de milhares de pensadores “dissidentes” e assim chamados “negadores do holocausto” recebem castigos desproporcionadamente severos. Em nenhum outro lugar as torturas e crimes contra as “bruxas” foram tão cruéis como na Europa central. Hoje em dia, nessa região, os revisionistas são mantidos cativos nas prisões mais conhecidas, como Stuttgart-Stammheim, o fortemente resguardado centro de isolamento, desenhado para confinar os terroristas mais perigosos. Só na Alemanha, mais de 10.000 pessoas são condenadas anualmente.

Na Áustria, a pena máxima para o revisionismo foi elevada a vinte anos de prisão (!). Semelhante tirania política pouco tem que invejar os regimes Estalinistas. Na Holanda, esta pena máxima era até pouco tempo, por lei, de só um ano, mas devido a uma série de artimanhas jurídicas e à poderosa pressão da Alemanha-EUA, quase em segredo, e à custa do povo e do parlamento holandês, foi recentemente elevada a 5 anos de prisão.

Cada um dos mencionados 22 pontos põe em evidência a perseguição contemporânea de revisionistas, expondo-a como o que realmente é: um descarado crime moral e jurídico; uma violação inaceitável, motivada politicamente, dos Direitos Humanos, da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e da liberdade de ciência.

Nos nossos tempos de raciocínio e de intelecto, o Holocausto aparece como o único fato histórico elevado à categoria de dogma por obra dos nossos modernos e “doutos teólogos”. Nenhum outro capítulo da história mundial está protegido judicialmente, de maneira tão draconiana, como está o Holocausto na Europa.
As discussões sobre o Holocausto pertencem ao domínio do livre pensamento, da liberdade de expressão e da livre investigação científica, e NÃO a uma jurisdição. Nem o poder judicial deveria ter concorrência para julgar problemas que só podem ser elucidados por meios científicos, nem a parte acusadora deveria pôr o problema num nível político.
Mais: a perseguição dos anti-holocaustistas é efectivamente e a todas as luzes uma perseguição racista: quase sem excepção os gentios são perseguidos por judeus ou grupos de pressão judeus. São estes os que iniciam as demandas e o hostilizamento contra os revisionistas, elevando os seus gritos ao céu até que os fantoches do poder judicial das democracias entram em acção contra os acusados. Jamais nenhum dos famosos revisionistas judeus foi levado a tribunal.
Cada um dos promotores, juízes e tribunais que se prestam para acções contra os revisionistas, compartilham uma grande culpa nesta comédia de criminalização do pensamento e os seus nomes serão recordados pelas futuras gerações como exemplos de vileza e desgraça. Conquanto alguns destes magistrados são postos entre a espada e a parede, sem mais alternativa do que co-participar na comissão de tais injustiças, a verdade é que a maioria dos inquisidores resumem voluntariamente, e com orgulho, o abominável papel dos seus antecessores medievais. A perseguição contemporânea de revisionistas, é moral e juridicamente ainda mais maliciosa do que a caça medieval dos hereges.
Naqueles tempos, pelo menos, requeria-se uma confissão do acusado para completar o processo de condenação e, às vezes, alguns réus (aqueles completamente inocentes das acusações) recebiam a graça da absolvição (3). Em troca, nos nossos dias, os “negadores do holocausto” levados ao tribunal por meio de denúncias desonestas são sentenciados a castigos severos.

Curiosamente, a “negação” de Deus, da Criação, do Diabo, de Cristo, de Alá, de Maomé, da Pátria, da Nação, não merece qualquer processo nem sanção alguma nas nossas democracias. Num mundo que já não tem fé em nada nem acredita em nada, só a “negação” do sacro-santo “Holocausto” comove os espíritos com uma fúria contígua no religioso e põe em movimento as molas de toda a maquinaria repressivo-judicial. Somos testemunhas de uma perseguição alimentada por fanatismos e ódios cuja magnitude é maior que durante o obscurantismo medieval.
Ao menos, nesses tempos, havia a remota probabilidade de que as pobres vítimas obtivessem alguma amostra de compaixão cristã. Agora, nos nossos tempos, em lugar de compaixão, só fica aquele visceral ódio judaico, tão bem descrito no Velho Testamento.



Notas:

(1) Apesar de ser um reconhecido defensor da tese holocaustófila, o historiador alemão Ernst Nolte reconhece o desacerto de excluir a argumentação científica: “Frente à importância fundamental da máxima ‘De Omnibus Dubitandum Est’ [se deve duvidar de tudo], alargada à convicção de que qualquer dúvida sobre a imperante concepção do ‘Holocausto’ e dos seus seis milhões de vítimas seja considerada desde um princípio como significado de uma maligna e abominável crença, necessária de proibição, não pode, sob nenhuma circunstância, ser aceite pela ciência, senão que deve ser recusada como um atentado contra a liberdade de investigação científica”.
(2) Recorde-se que naqueles tempos a acusação de herege era a arma mortal mais temível. Se quisesse destruir uma pessoa bastava acusá-la de ser herege, o que equivaleria hoje a acusá-la de ser racista, anti-semita ou negacionista. Por isso, não faltavam acusações infundadas entre inimigos pessoais, devedores, amantes enfurecidas, etc. Em muitos casos, tais denúncias não prosperavam ou as vítimas conseguiam atingir a absolvição depois de se descobrir a motivação dos denunciantes.
(3) Por exemplo, no processo Zündel, na Alemanha, a defesa foi proibida de esgrimir “esses argumentos pseudo-históricos”, sob risco de se fazer também sancionável. Se os advogados de Zündel fizessem questão de fazer uso de ditos argumentos, o público teria que ser desalojado da sala. Às vezes, dada a força da argumentação e o pouco conveniente desta para o sistema, se obriga à defesa a apresentar as suas declarações “só por escrito” (!), evitando assim que cheguem aos ouvidos de terceiras partes. Um sarcástico comentarista descreveu esta caprichosa exigência de argumentação não oral, como uma “litigação entre fantasmas”.




[Traduzido por Centauro daqui e adaptado para o Revisionismo em Linha por Johnny Drake]

A Síndrome de Wilkomirski: História Falsificada (II)



(Continuação)


Wilkomirski

A história mais intrigante, porém, é a de Binjamin Wilkomirski, que publicou o livro Fragmentos. Nesse livro, o autor relata como chegou aos campos de concentração Majdanek e Auschwitz, sobreviveu ao extermínio, e como, depois da guerra, viveu num abrigo de crianças, até que, graças a uma organização humanitária, chegasse à Suíça. Ali viveu mais uma vez num abrigo de crianças, até que fosse adotado por um rico casal de médicos de Zurique. Em 1995, editores judeus publicaram na conhecida e influente editora Suhrkamp, da Alemanha, as memórias de Wilkomirski, as quais, em função dos detalhes e da brutalidade do relato, superavam tudo aquilo que se conhecia até então. Mesmo que o autor tivesse apenas três anos, na época dos acontecimentos, lembrava-se do assassinato do pai, no gueto, com uma clareza fotográfica: “Agentes uniformizados, vestindo botas, gritam com ele, o levam pela porta. Um grito de medo ecoa pela escadaria: ‘Atenção! Milícia leta!’. Portas batem. O homem é levado para baixo. Eu vou atrás; me grudo no corrimão e vou descendo. [...]. Colocaram o homem na parede, ao lado da entrada. Aos gritos, os uniformizados embarcam num automóvel estacionado na rua, gesticulam, agitam os porretes e deformam seus rostos numa expressão de ódio. Gritam sempre a mesma coisa, que soa como ‘acabam com ele! acabam com ele!’. O automóvel se põe em movimento. Acelera em direção à parede, em direção a nós. O homem continua imóvel, encostado na parede, perto de mim. Estou sentado o chão, entre a porta e a parede, os olhos voltados para ele. Ele baixa os olhos para mim e abre um sorriso. Mas, de repente, seu rosto se desfigura, ele o vira para o lado, levanta a cabeça, abre a boca, como se quisesse soltar um grito. Lá de baixo, contra a claridade do céu só consigo enxergar ainda os contornos de seu queixo e o chapéu, que resvala para trás. Nenhum grito ecoa de sua boca, mas um jato preto sai de sua garganta, quando o automóvel o imprensa contra a parede”.7



A criança também se lembra com a mesma exatidão das mulheres mortas no campo de extermínio: “Algo desperta minha curiosidade, mas a montanha de cadáveres continua ali, como sempre. Ou será que algo mudou de lugar? Estranho, mulheres mortas não podem mover-se! [...]. Mas algo se movimenta! A barriga se movimenta! Não ouso levantar e não consigo mais tirar os olhos dali. Fico olhando, incrédulo. De joelhos, vou me aproximando.
Que é que está acontecendo? [...]. Agora vejo a barriga toda. Numa enorme ferida lateral, algo está se mexendo. Me ergo, para ver melhor. Estico meu pescoço e, nesse momento, a ferida se abre, repentinamente, a tampa da barriga se levanta e um enorme rato ensangüentado, brilhoso resvala pela montanha de cadáveres. Outros ratos alvorotados saem do amontoado de cadáveres e fogem”.8


Enquanto todas as outras crianças dos campos de extermínio são mortas, Wilkomirski sobrevive. Primeiro, o campo de Majdanek, depois, um transporte ferroviário, incluindo um acidente, para Auschwitz-Birkenau, e, finalmente, também este último campo. No abrigo de crianças, na Suíça, por fim, seu nome é trocado de forma não esclarecida, e ele passa a chamar-se Bruno Grosjean e, depois da adoção, Bruno Dössekker. Ele estuda História e aprende a construir instrumentos musicais, vindo a trabalhar como professor de música. Aos 18 anos, conta sua história a uma amiga que vem da Letônia e passa a estudar intensamente a história do Holocausto. No início dos anos 1980, fica muito doente de um mal do sangue e afirma que se trata de uma conseqüência tardia das experiências médicas a que fora submetido em Majdanek. Sua segunda esposa dá testemunho sobre a forma em que as memórias traumáticas estão voltando. Ele procura uma terapeuta e também conhece o psicoterapeuta judeu Elitsur Bernstein, e ambos o incentivam a escrever sua história.

Na Neue Zürcher Zeitung, o pequeno livro foi louvado com substantivos como “densidade, imutabilidade e força imagética” e como “fardo do século”. O texto foi traduzido para nove línguas, Wilkomirski recebeu vários prêmios, entre os quais o “Jewish Quartely Literacy Prize”, da Grã-Bretanha, o “National Jewish Book Award”, dos Estados Unidos, e o “Prix Mémoire de la Shoah”, da França. Também a cidade de Zurique homenageou seu filho. Wilkomirski foi convidado para vários eventos, nos quais sua presençainvariavelmente abalava os ouvintes. Wilkomirski apresentou-se como alguém alquebrado, profundamente entristecido, que não conseguia mais ler ele próprio passagens de seu livro, mas alguém lia por ele, leitura acompanhada da execução de cânticos judaicos ao clarinete. Mas Wilkomirski não se preocupou só consigo mesmo. Ele queria ajudar outras pessoas. Juntamente com seu amigo Bernstein, apresentou em diversos congressos científicos um método terapêutico próprio. Através da combinação entre Psicoterapia e Ciência Histórica, esse método se propõe a despertar a memória da primeira infância, e com isso ajudar a todas aquelas pessoas que têm dúvidas sobre suas origens a esclarecer sua identidade. A seguir, ele começou a incluir outras pessoas em sua biografia e em suas apresentações públicas. Em Israel foi achado seu pai. O retorno do filho pródigo ficou registrado em imagens no filme “A lista de Vanda”.9

Entre as muitas cartas que Wilkomirski recebeu, achava-se uma de uma tal de Laura Grabowski, de Los Angeles. Também ela sobreviveu a Auschwitz, com a idade de quatro anos, e só em meados de 1997 conseguiu reunir forças para juntar-se a um “Holocaust Child Survivors Group”. Wilkomirski a encontrou em um evento no dia da memória do Holocausto de 1998, na sinagoga de Beverly Hills. Wilkomirski tocou clarinete, Grabowski piano. No final do encontro, declarou à BBC que ele a reconheceu.10

Ainda antes de o livro de Wilkomirski ser editado, houve dúvidas sobre a veracidade do conteúdo. O jornal suíço Weltwoche encarregou o escritor judeu Daniel Ganzfried a fazer uma investigação. Ele leu o livro, considerou-o totalmente inverossímil, e em muito pouco tempo descobriu a identidade de Bruno Dössekker.11

Simultaneamente, foi desmascarada a identidade falsificada de Laura Grabowski, a qual desapareceu. Não se tratava de sua primeira falsificação. Em meados dos anos 1980, ela se apresentara como Laura Stratford, com um livro-revelação intitulado Satan’s underground, na época em que se discutia nos Estados Unidos sobre uma suposta onda de maus tratos a crianças e de cultos satânicos. 12 No livro, relata como ela, aos seis anos, na qualidade de filha adotiva, fora entregue, por sua mãe, durante meses, a estupradores e depois deixada com um grupo que se dedicava à pornografia infantil. Ali, ela ficara presa durante semanas numa caixa juntamente com cadáveres de crianças, até que se declarasse disposta a participar do sacrifício ritual de crianças. Ela gerou três filhos, que foram assassinados diante dela durante a produção de filmes e em cerimônias rituais. Seu livro com essas histórias de horrores teve 140.000 exemplares vendidos nos Estados Unidos, e a nação chorava juntamente com ela em igrejas e na televisão. Quando as dúvidas sobre sua história começaram a aumentar, ela desapareceu, para reaparecer alguns anos depois, como sobrevivente do Holocausto. Seu verdadeiro nome é Lauren Willson.



7 WILKOMIRSKI, Binjamin. Bruchstücke: aus einer Kindheit, 1939-1948. Frankfurt:
Suhkamp, 1995, p. 9 e seg.

8 Ibid., p. 80 e seg.
9 “Reshimot Vanda”, de Vered Berman, Estado de Israel, 1995.
10 “Child of the death camps: truth & lies” (BBC-TV, 1999).
11 GANZFRIED, Daniel. Die geliehene Holocaust-Biographie. Die Weltwoche, n. 35, de
27 de agosto de 1998.
12 PASSANTINO, Bob & GRETCHEN; Trott, Jon. Lauren Stratford: from satanic ritual
abuse to Jewish Holocaust survivor. Cornstone, vol. 28, n. 117, 1999.



(Continua)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A Síndrome de Wilkomirski: História Falsificada (I)



A Síndrome de Wilkomirski: História Falsificada


por
WOLFGANG HEUER*



[Texto retirado de: Estudos Ibero-Americanos. PUCRS, Edição Especial, n. 2, p. 35-47, 2006]




Resumo: A utilização da memória pela História nos remete à questão da confiabilidade, e, com isso, “ao voto de confiança” (Ricoeur) à testemunha. Em contraste com as formas usuais de tentar impedir ou impor a memória, o interesse público contemporâneo por depoimentos pessoais tem levado a muitos casos de falsificação da memória, entre os quais o mais famoso é a história de “Wilkomirski”. O presente artigo se dedica às formas atuais de autovitimização, procura entender por que a maioria dos historiadores falhou em reconhecer a falsificação, por que mentir traz mais vantagens do que dizer a verdade, e qual a função do julgamento crítico como pré-requisito para a confiabilidade.


Falsificações constituem um problema antiqüíssimo na História. Como escreveu Paul Ricoeur em sua conferência sobre “L’écriture de l’histoire et la représentation du passé”,1 há três razões possíveis para essas falsificações: primeiro, elas servem para impedir a memória; segundo, elas servem para manipular a memória; e, terceiro, elas servem para impor a memória.

Mas deve-se distinguir claramente entre duas coisas: lembrança e memória, por um lado, e História e representação histórica, por outro. No primeiro caso, na lembrança, trata-se de um processo individual, que também pode assumir uma dimensão psicossocial; no segundo caso – o da representação histórica –, trata-se de um processo mais distanciado e, ao mesmo tempo, mais político. Ricoeur volta sua atenção em especial para o primeiro processo – sem excluir o segundo.
Para exemplificar uma situação de impedimento da memória, ele chama a atenção para a tentativa de exclusão da memória descrita por Freud. Para mostrar a manipulação de memória, ele cita o direcionamento do relato individual através de omissões e de silêncios. E, finalmente, a imposição da memória ele enxerga no círculo familiar, onde a geração mais velha, através de seu relato sobre o passado, prescreve à geração mais nova a interpretação a ser dada à História. De fato, encontramos esses três tipos de falsificação também no plano da escrita da História ou da representação política: o silêncio sobre, ou a negação de um acontecimento; uma escrita da História guiada por interesses e, com isso, manipulada; e, finalmente, a representação oficial da história nacional. Essas falsificações na memória e na escrita da História não seriam tão freqüentes se o processo de compreender os acontecimentos não estivesse tão estreitamente vinculado a fenômenos da lembrança. Para Ricoeur, uma fenomenologia da lembrança se compõe da presença da memória, da mnêmê, e da busca pela memória, da representação ou anamnêsis.

A presença da memória, que é ao mesmo tempo imagem e reprodução da imagem, e a rememoração, que muitas vezes consiste num penoso buscar-nalembrança, oferece, estruturalmente, todas as possibilidades para modificações e para falsificações. Pois nem a memória nem a rememoração oferecem qualquer outra coisa que quadros imaginados. Como, neste caso, sempre é possível que ocorram enganos decorrentes da diferença entre realidade e sua reprodução, a tentação de produzir ilusões e de auto-iludir-se é igualmente grande.

Essa falta de nitidez estrutural não representa apenas um desafio para a pretendida exatidão da memória e das representações históricas, mas também uma tentação de se transitar dos fatos para a ficção. É por isso que urge responder àquilo que Ricoeur chama de “voto de confiança”: “Se a memória é um quadro imaginado, como não confundi-la com a fantasia, com a ficção ou com a alucinação? Assim, no início de um empreendimento que pretende levar da lembrança para a História está um ato de confiança em uma experiência que se pode entender como uma experiência primordial nesse campo, isso é, a experiência do reconhecer”.2

A partir deste ponto, gostaria de me dedicar a um fenômeno específico, qual seja o de um relato de vida conscientemente falsificado. Ele se apresenta como uma vivência autêntica e reivindica o
status de fonte histórica, que está na base de toda a escrita da História. No centro está o relato Fragmentos, de Binjamin Wilkomirski.
O sucesso dessa história inverídica nos remete às seguintes perguntas:
  • Por que a maioria dos historiadores falhou na sua avaliação?
  • Qual o papel exercido pelo contexto intelectual e cultural para o sucesso desse relato?
  • Qual a vantagem que a mentira tem sobre a verdade?
  • E, que papel exerce o voto de confiança, proposto por Ricoeur?

Histórias inverídicas

Nos últimos anos uma série de histórias de vida falsificadas apareceu no mercado. Assim, durante dois anos, podia ler-se na Internet o diário da teenager Kaycee Nicole, que relatava sua luta contra o câncer, até que morresse, em 2001. Milhares de leitores acompanhavam sua luta pela sobrevivência, mandavam-lhe cartas e presentes, lhe telefonavam e mobilizavam uma parcela crescente da opinião pública, até que, depois de sua suposta morte, uma investigação mostrou que Kaycee Nicole nunca havia existido. Ela fora uma invenção de uma dona de casa no Kansas.3

Em 1980, a jornalista americana Janet Cooke publicou no Washington Post a comovente história de um menino de oito anos, viciado em heroína. Marion Barry, o prefeito de Washington D. C. ficou tão comovido que mandou procurar o menino – mas, em vão. Apesar das dúvidas crescentes sobre a autenticidade da história, Janet Cooke recebeu o cobiçado Prêmio Pulitzer, que ela teve de devolver pouco tempo depois. Dez anos mais tarde, porém, os direitos de filmagem dessa história foram vendidos por 1,5 milhões de dólares americanos.4

Na Austrália, a autobiografia My own sweet time, da aborígine Wanda Koolmatrie despertou grande curiosidade, em 1995, tendo recebido um prêmio literário nacional para mulheres estreantes na literatura. Dois anos depois, descobriu-se que o livro não fora escrito
por uma mulher, mas sim por um homem – que não era aborígine, mas sim branco. Na mesma semana foi desmascarada mais uma falsificação, na qual apenas os papéis sexuais estavam invertidos: o festejado pintor aborígine “Eddie Burrup” revelou-se uma mulher irlandesa de 82 anos.5

No ano 2000, Paul Parks, de Boston, um negro defensor dos direitos humanos, já aposentado, recebeu o prêmio Raoul Wallenberg, da organização judaica B’nai B’rith, de Berlim, por seu destacado empenho humanitário. Ele e outros veteranos das forças armadas aliadas receberam esse prêmio por terem participado da libertação de campos de concentração, ao final da Segunda Guerra Mundial. Paul Parks esteve no primeiro tanque que entrou no campo de concentração de Dachau, perto de Munique. No filme The last days, de Steven Spielberg, premiado com um Oscar, Paul Parks relata sua história. Ela, porém, foi contestada por outros veteranos norte-americanos. Descobriu-se que durante a libertação de Dachau Paul Parks nem se encontrava na Alemanha, e sim numa base americana na Inglaterra. Parks contava sua história desde 1978, aparecendo, desde 1987, como cobiçado conferencista entre grupos judaicos e sobreviventes do Holocausto, tendo sido feito patrono do “New England Holocaust Memorial”, em Boston. Ele
foi um dos poucos defensores negros de direitos humanos que se interessou pela história judaica, e assumiu funções de mediador entre a população negra e a branca, na cidade de Boston, quando esta foi agitada por conflitos raciais.

Em 2005, foi noticiado que o presidente da Agrupación Amical Mauthausen, que congrega sobreviventes de campos de concentração, Enric Marcó, nunca esteve preso em qualquer campo de concentração. Durante 30 anos, o cidadão, que entrementes tem 84, viajou pelo mundo relatando as barbáries a que foi submetido no campo de concentração alemão de Flossenbürg. Na última vez, se apresentou no parlamento espanhol, por ocasião da rememoração dos 60 anos de libertação de Auschwitz. Marcó não foi preso em 1943 pela GESTAPO, na França, como membro da resistência francesa e deportado para o campo de concentração, como afirmara.
De fato, ele se apresentara, em 1941, como voluntário para ir à Alemanha, quando Franco, a pedido de Hitler, enviou trabalhadores especializados para a indústria bélica alemã. Marcó trabalhou até 1943 num estaleiro em Kiel, e depois regressou à Espanha.6

* Cientista político na Universidade Livre de Berlim; publicou trabalhos sobre Hannah
Arendt, sobre coragem cívica, sobre debilidades da democracia, entre outros; professor-
visitante em universidades brasileiras. E.mail: wolfgang.heuer@gmx.de.
A tradução do texto é de René E. Gertz.
1 RICOEUR, Paul. L’écriture de l’histoire et la représentation du passé. Annales, ano
55, n. 4, jul.-ago. 2000, p. 731-748.
2 RICOEUR, loc. cit., p. 723.
3 The short life of Kaycee. The Guardian, 28 de maio de 2001.
4 The story. Washington Post, 19 de abril de 1981, p. A12-A15. E: “Whatever happened
to ... – former Washington Post reporter Janet Cooke sold movie rights to the fictitious
story – of an 8-year-old heroin addict named ‘Jimmy’ for $1.5 million” (John Elvin –
Insight on the news, 24 de abril de 2000).
5 Another acclaimed “aboriginal” artist turns out to be white (Peter James Spielmann –
South Cost Today –
www.southcoasttoday.com/daily/03-97/03-17-97/b06ae053.htm).
6 “El presidente de las víctimas españolas em Mauthausen confiesa que nunca fue
preso de los nazis” (El Mundo, 11 de maio de 2005).

(continua)

Sobre Benjamin Wilkomirski podem ficar a saber mais aqui.